Abordagens Clássicas sobre a Vitimação e a Crítica à Ideia de “Vítima Ideal”

06-03-2025

Amir (1967) e Duggan (2018) apresentam perspetivas distintas sobre a vitimação, permitindo uma análise crítica da resposta social atual à violência de género. Duggan (2018) critica como as vítimas de violência doméstica são vistas e tratadas socialmente. Ao desafiar o conceito de "vítima ideal", que retrata a mesma como passiva e moralmente irrepreensível, a autora procura uma abordagem mais empática e realista que reconheça a complexidade das experiências de vítimas cujas histórias não se encaixam nestas narrativas restritas. 

Portanto, ao propor esta abordagem, Duggan (2018), contrapõe-se à perspetiva de Amir (1967), que introduz o conceito de "precipitação da vítima", sugerindo que, embora a responsabilidade principal recaia sobre o agressor, comportamentos da vítima podem ser interpretados como encorajadores, contribuindo para a racionalização do ato criminoso. Esta mentalidade, embora apresentada num período histórico distante, continua a ressoar em discursos contemporâneos, perpetuando a culpabilização das vítimas. As perspetivas de ambos, apesar de diferentes e da grande distância temporal que as separa, refletem uma sociedade patriarcal que vigora até aos dias de hoje, e que transfere para as vítimas o fardo da prevenção e as sujeita a julgamentos morais quando não correspondem ao estereótipo restrito de "vítima ideal". 

Surge a questão: Como é que as narrativas sociais atuais influenciam a forma como compreendemos a violência? Campanhas de sensibilização, como o Domestic Violence Disclosure Scheme (Clare's Law), ilustram essa tensão, visto que podem influenciar a responsabilidade e prevenção individual da vítima, em vez de desafiarem as causas estruturais da violência. Ao mesmo tempo, reforçam o arquétipo da "vítima ideal", tipicamente associada à fragilidade. Os media e os discursos políticos, ora promovem narrativas de empoderamento, ora amplificam estereótipos (Duggan, 2018).

Concluindo, no cerne destas questões está a necessidade de uma mudança estrutural, social e cultural profunda. Em vez de moldarmos as vítimas à realidade de um mundo agressor, devemos trabalhar para transformar esse mundo. A transformação de um sistema patriarcal requer, não apenas mudanças de foro legal e institucional, mas um compromisso coletivo para a desconstrução de estereótipos. A verdadeira mudança começa nos espaços onde nos realizamos e desenvolvemos como pessoas, como por exemplo, no meio familiar e nas escolas. Assim, prevenir a vitimação não deve ser uma responsabilidade exclusiva da vítima, mas um compromisso coletivo.


Maria Manuel Branco

Referências Bibliográficas

Amir, M. (1967). Victim precipitated forcible rape, Journal of Criminal Law, Criminology and Police Science, 58(4), 493-502.

Duggan, M. (2018). 'Idealising' domestic violence victims. In M. Duggan (Ed.), Revisiting the "Ideal Victim": Developments in Critical Victimology (159-172).

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