Contextualização Histórica da Psicologia da Paz

08-03-2025

A psicologia, como um campo de estudo da mente humana, durante períodos de grande conflito, ajudou a legitimar a violência e a diluir a responsabilidade individual, permitindo que ações moralmente questionáveis fossem aceites em tempos de guerra. Por exemplo, os soldados eram frequentemente tratados como números, não como indivíduos, o que facilitava a despersonalização das suas ações e a execução de ordens sem questionamento moral. Além disso, a prática de disparar simultaneamente, de modo a diluir a responsabilidade individual pelas mortes, também ajudava a minimizar a carga emocional e ética de cada soldado.

A psicologia não se dedicava, então, à promoção da paz, mas sim ao apoio ao conflito armado. Após a Primeira Guerra Mundial, os métodos utilizados para obter o apoio das tropas e dos civis necessitaram de ser reformulados. Fazer discursos para os recrutas e para o público americano já não era eficaz. 

O cinema tornou-se o meio de eleição para persuadir os soldados e recrutas dos Estados Unidos da América sobre a necessidade de combater. Ao manipular pedaços do material inimigo para editar e colocar a sua própria narração sobre os resultados, Capra deu significado e propósito à guerra, através do documentário Why We Fight (1942-1945). Com uma edição extremamente cuidada, criou uma série com uma imagem de "nós contra eles" ao reenquadrar e mostrar clips fora da ordem e contexto originais. A série foi financiada pelo governo dos Estados Unidos da América e utilizada para condicionar, principalmente, os militares e o público norte-americano a aceitar a guerra.

Mais tarde, uma mudança significativa começou a ocorrer quando a ameaça nuclear da Guerra Fria levantou preocupações sobre os horrores das guerras e a iminente destruição global. Surgiram, assim, movimentos pacifistas e uma crescente reflexão sobre a contribuição da psicologia para a promoção da paz.

No entanto, reflito que ainda restam "vestígios" da glorificação da guerra, na nossa realidade atual como, a título de exemplo, nos manuais escolares e nos discursos oficiais, onde a expansão colonial portuguesa é frequentemente retratada como uma era de "descobrimentos", ignorando as violências cometidas, como a escravatura e a invasão e destruição de culturas locais.

Além disso, atualmente, ainda vivemos um mundo de conflitos e guerra, como os da Ucrânia-Rússia e Israel-Palestina. Esta realidade revela a persistência de mentalidades ultrapassadas. Talvez isso possa ser explicado pela violência estrutural, isto é, conflitos latentes mal resolvidos, que persistem entre os territórios e sociedades, culminando, de tempos em tempos em violência direta.

Concluindo, a história ensina-nos que nenhuma guerra termina verdadeiramente com o último tiro disparado. As cicatrizes permanecem na memória coletiva, nas ideologias e nas estruturas sociais que perpetuam desigualdades e ressentimentos. 

O mundo atual prova que o passado nunca foi enterrado. Conflitos históricos, mascarados de novas disputas, continuam a ceifar vidas e a alimentar ciclos de ódio. Se não reconhecermos os erros da história e não desmontarmos as narrativas que normalizam a guerra, permaneceremos reféns de um destino onde a paz será sempre um intervalo entre duas tragédias.


Maria Manuel Branco

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