Discursos populistas
Há algo de inquietante na facilidade com que certos discursos ganham eco. Sempre me causou desconforto essa tendência de empobrecer o debate público, de embrulhar questões profundas em pacotes de frases feitas, de oferecer o alívio imediato da simplicidade onde o rigor e a dúvida deveriam reinar.
Vivemos imersos em ruídos: opiniões rápidas, verdades mastigadas, certezas que não resistem à mais leve brisa da análise. E nestes fragmentos, falta-nos o essencial, pensamento crítico, tempo para refletir, vontade de compreender. Sem essas âncoras, tornamo-nos presas fáceis do discurso que grita mais alto, não do que faz mais sentido.
Talvez seja aqui que mora o segredo da sedução populista: no vazio deixado pela ausência de estrutura, na fome que não é apenas por pão, mas por pertença a algum lugar. Num mundo onde muitos ainda lutam por satisfazer o mais básico (segurança, abrigo, dignidade), que espaço sobra para o debate complexo? Como exigir sofisticação política de quem vive à beira da sobrevivência?
A teoria de Maslow traça um mapa antigo para uma verdade sempre atual: só sobe quem tem chão. E enquanto milhões permanecem presos aos degraus inferiores dessa pirâmide (entre o medo e a necessidade), torna-se quase inevitável que alguém lhes ofereça atalhos. Mesmo que ilusórios.
É aí que emergem figuras como: André Ventura, Donald Trump, e tantos outros. Não inventaram a angústia. Apenas a nomearam de forma sedutora. Apontaram culpados, simplificaram causas, prometeram rupturas e muitos os seguiram, por cansaço e desilusão. Não se trata, portanto, de inteligência ou burrice, mas de um sistema que se alimenta da exclusão. Quem não teve acesso à palavra, não pode debater o discurso. Quem não foi ensinado a pensar, facilmente aceitará pensar pela cabeça dos outros.
O mais inquietante é isto: não são apenas os líderes que alimentam o ódio. É o terreno que o permite florescer. E esse terreno somos todos nós, nas nossas omissões, nas estruturas que perpetuamos, na normalização da desigualdade. A ignorância não é apenas um estado; é, muitas vezes, um projeto.
No fim, não é o barulho dos populistas que mais assusta. É o silêncio daquilo que deveria ocupar o seu lugar.
Maria Manuel Branco