Reflexão e Análise do filme A Onda
A Onda conta a história de Mr. Ross, um professor que cria um experimento social para ensinar aos seus alunos o poder do autoritarismo, formando o grupo A Onda, que rapidamente ganha adesão e cresce em popularidade. Entre os alunos, Robert torna-se o seguidor mais fanático, enquanto Lauri é a aluna rebelde que desafia o movimento e se recusa a participar, tentando alertar os restantes colegas sobre os perigos. O experimento sai de controlo, demonstrando como o fascismo pode emergir facilmente.

A dinâmica do filme pode ser analisada através de conceitos psicológicos como os papéis de líderes, bystanders (espectadores passivos), e perpetradores, que estão interligados num triângulo psicológico, onde o poder de um único líder pode influenciar o comportamento de muitos.
De seguida, apresenta-se uma análise do filme, através da qual estão exemplificados os mecanismos de descomprometimento moral desenvolvidos por Albert Bandura.
Mr. Ross, como líder, cria um ambiente onde todos os membros do grupo sentem que fazem parte de algo maior, mais importante, e unificado. Assim, o mesmo recorre a técnicas de persuasão para reforçar a sua autoridade e o seu carisma, com o objetivo de criar uma identidade de grupo que se apoia num símbolo, gesto e lema que fortalecem a coesão e o poder coletivo. Este processo é explicado pela teoria da identidade social, onde as pessoas se identificam com o grupo e seguem normas e símbolos que representam a comunidade. Além disso, Mr.Ross, ao justificar as suas ações como parte de um "bem maior", cria uma sensação de moralidade para com o grupo, sendo um exemplo claro de justificação moral, onde as ações erradas são legitimadas em nome de um objetivo comum. Como líder, o Rossi despersonaliza os indivíduos, reduzindo a sua identidade pessoal em prol de uma identidade coletiva, o que facilita a prática de atos desumanos, visto que os membros do grupo deixam de ver as vítimas como indivíduos com direitos próprios e começam a ver os outros como "outros", ou seja, como parte de um grupo a ser excluído.
Já os perpetradores, como Robert, muitas vezes sentem-se excluídos e marginalizados, o que torna fácil que se juntem a um grupo que promete uma identidade coletiva e um sentido de pertença. Este fenómeno é conhecido como perpetradores sociais: pessoas que, devido à sua vulnerabilidade social ou psicológica, se tornam mais suscetíveis à pressão do grupo. Além disso. os perpetradores procuram sentir-se parte de algo maior, o que lhes dá uma sensação de poder e inclusão. No contexto grupal, a responsabilidade pela ação é muitas vezes deslocada para a autoridade ou para o grupo como um todo, o que resulta na difusão da responsabilidade. Isto faz com que os indivíduos se sintam menos responsáveis pelas suas ações, já que se veem como parte de uma massa maior que segue o líder.
O efeito bystander, ou efeito espectador descreve a tendência dos indivíduos de não agir em situações de emergência quando estão na presença de outros, por acreditar que alguém tomará a responsabilidade. No contexto do filme, os bystanders são aqueles que, embora vejam a dinâmica de grupo perigosa a desenvolver-se, não intervêm porque esperam que outros o façam ou porque se sentem desamparados diante da pressão social. Nestes casos, a difusão da responsabilidade leva à inação, dado que cada pessoa acredita que é tarefa de outra pessoa agir. Esta crença perpetua o ciclo de violência e desumanização, já que ninguém assume a responsabilidade de parar o que está a acontecer.
Laurie, com uma atitude inconformista, representa a resistência ao grupo e à dinâmica imposta pelo líder. Possui uma mentalidade crítica, demonstrando-se assertiva e corajosa. Mesmo que sinta a pressão para pertencer, revela comprometimento moral, uma capacidade de olhar para as consequências negativas e tomar a responsabilidade individual. Laurie torna-se um exemplo de como uma única pessoa pode influenciar o comportamento do grupo, desafiando as normas sociais estabelecidas e demonstra que a mudança começa com uma pessoa disposta a agir com integridade.
Verificam-se também outros mecanismos de descomprometimento moral de Albert Bandura no filme A Onda: a comparação vantajosa, no qual as ações do grupo são minimizadas ou até mesmo defendidas como necessárias para evitar algo pior. Esta lógica torna a violência mais aceitável e ajuda a racionalizar o que, de outra forma, seria visto como inaceitável; a minimização, ignorância ou distorção das consequências, que diz respeito a subestimar ou ignorar as consequências negativas de uma ação para aliviar a culpa; e a atribuição de culpa, ou seja, o ato de colocar a culpa na vítima, sugerindo que a mesma merece.
Em suma, o filme A Onda exemplifica como é que os papéis de líderes, perpetradores e bystanders se interligam e como é que dinâmicas de grupo podem levar à desumanização e à violência.
Torna-se essencial compreender como é que indivíduos, sem traços de psicopatia, também se conformaram acriticamente ao grupo e a uma autoridade. Hanna Arendt (1963) explica este fenómeno através daquilo que denominou de Banalidade do Mal. A autora explora o facto de que pessoas comuns podem cometer atos terríveis quando seguem ordens ou fazem parte de sistemas burocráticos que despersonalizam as suas ações.
"A linha que separa o bem e o mal atravessa o coração de cada ser humano". Esta frase sugere que o potencial para o bem e o mal não é exclusivo de certas pessoas ou grupos, mas está presente em todos nós. Significa isto que, dadas as circunstâncias certas, qualquer pessoa pode ser levada a cometer atos cruéis ou injustos, mesmo que anteriormente se considerasse moralmente íntegra.
Podemos também verificar, através dos estudos de Milgram, a capacidade de obediência à autoridade. Milgram conduziu um experimento, nos anos 60, por forma investigar a obediência à autoridade. Participantes foram instruídos a aplicar choques elétricos a um "aluno" (na verdade, um ator) cada vez que este cometia erros nalguma tarefa. Apesar dos gritos de dor do "aluno", muitos participantes continuaram a aplicar choques por estarem a seguir as ordens de uma figura de autoridade. O estudo demonstrou que, ainda que algumas pessoas desistissem, a maioria estava disposta a obedecer à autoridade para infligir dor, mesmo que isso implicasse ir contra os seus princípios.
Pelo exposto, deixo a nota de que é crucial, à semelhança de Lauri, no filme A Onda, conservar a capacidade de resistir à autoridade e à pressão do grupo em todas as áreas da nossa vida. A resistência é fundamental para garantir a nossa autonomia e impedir que nos tornemos cúmplices de comportamentos violentos ou injustos. Neste sentido, é necessário praticar e fortalecer atitudes de ajuda, por forma a torná-las "banais", isto é, naturais e seguras nas nossas ações.
Maria Manuel Branco